Psicologia sem divã

O_tempo_nao_passaJamais seria capaz de me comparar ao grande Alberto Caeiro, mas com o Fernando… até que temos algo em comum (afinal, me chamo Fernanda!). Mas não é esse o tema me motivou a postar este texto, mas sim, a identificação que eu sinto com poemas capazes de expressar o que a alma pensa nas situações mais corriqueiras da vida.

Acredito mais na Psicologia da realidade do que nas longas sessões sobre o divã (que Freud me perdoe por essa traição!). Por isso, gostaria de compartilhar dois poemas que eu poderia ler todos os dias e ainda assim, ter a impressão de que eles acabaram de ser escritos.

“Com uma tal falta de gente coexistível, como há hoje, que pode um homem de sensibilidade fazer senão inventar os seus amigos, ou quando menos, os seus companheiros de espírito?”
Fernando Pessoa

Essas palavras me inspiram a inventar tempo e energia para desfrutar os meus poucos amigos “reais”, para quem todo esse esforço vale realmente à pena!

Fernanda Suguino

  • Para além da curva da estrada
  • Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
  • E talvez apenas a continuação da estrada.
  • Não sei nem pergunto.
  • Enquanto vou na estrada antes da curva
  • Só olho para a estrada antes da curva,
  • Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
  • De nada me serviria estar olhando para outro lado
  • E para aquilo que não vejo.
  • Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
  • Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
  • Se há alguém para além da curva da estrada,
  • Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
  • Essa é que é a estrada para eles.
  • Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
  • Por ora só sabemos que lá não estamos.
  • Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
  • Há a estrada sem curva nenhuma.
  • Alberto Caeiro
  • A espantosa realidade das cousas
  • É a minha descoberta de todos os dias.
  • Cada cousa é o que é,
  • E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
  • E quanto isso me basta.
  • Basta existir para se ser completo.
  • Tenho escrito bastantes poemas.
  • Hei de escrever muitos mais. naturalmente.
  • Cada poema meu diz isto,
  • E todos os meus poemas são diferentes,
  • Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.
  • Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
  • Não me ponho a pensar se ela sente.
  • Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
  • Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
  • Gosto dela porque ela não sente nada.
  • Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.
  • Outras vezes oiço passar o vento,
  • E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.
  • Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
  • Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
  • Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
  • Porque o penso sem pensamentos
  • Porque o digo como as minhas palavras o dizem.
  • Uma vez chamaram-me poeta materialista,
  • E eu admirei-me, porque não julgava
  • Que se me pudesse chamar qualquer cousa.
  • Eu nem sequer sou poeta: vejo.
  • Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
  • O valor está ali, nos meus versos.
  • Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.
  • Alberto Caeiro
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Autor: Fernanda Suguino

Fascinada por gente que pensa, questiona e desafia a si mesmo. Psicóloga formada pela Universidade Mackenzie e pós-graduada em Psicopatologia pela NAIPPE/USP.

2 comentários em “Psicologia sem divã”

  1. Excelente poemas, não conhecia o Alberto Caeiro!
    O que pode um homem fazer em? rssss, show!
    Querida, muito bacana seu blog, está de parabéns!
    Vou ler mais um pouquinho e antes de mais nada gostaria de agradecer sua visitinha no meu blog (mulherdiferente.blogspot.com), abraços =)

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