O mito da harmonia familiar

Quem disse que as relações familiares são fáceis? Os laços familiares são eternos, nem mesmo a distância ou a morte são capazes de encerra-los. Por mais que haja desentendimentos, pais nunca deixam de ser pais, irmãos nunca deixam de ser irmãos, ainda que, por qualquer motivo, o contato se (inter)rompam.

E mais complicado ainda é depois do casamento, quando duas famílias diferentes se (des)unem. Aí sim é que as relações ficam ainda mais confusas e os conflitos, mais aparentes! Não são raros os casais que sofrem interferência familiar em sua vida privada. De repente, a cama fica pequena: no meio, você e ele e, de cada lado, o “fantasma” dos pais de cada um, que os acompanham vivos ou mortos, presentes ou onipresentes.

viver_na_ sombra_dos_pais

A delimitação dos papeis (que já não é fácil em uma família isolada) se agrava pelo fato de se tratarem agora não de uma, mas de duas famílias. E, em pouco tempo, tomar a mais simples das decisões se transforma em um verdadeiro pesadelo, pois todos tem algo a dizer ou algum ponto para reclamar ou alguma exigência para fazer. Sempre tem alguém que não concorda ou que confronta a decisão do casal. De repente, todo mundo se sente no direito de dar a sua opinião, ainda que ninguém tenha perguntado por ela.

o mito da harmonia familiarClique na imagem para se aprofundar no tema.

Como se os desafios da vida a dois já não fossem suficientes, os sogros se sentem no direito de comparar a vida do jovem casal às experiências que eles vivenciaram em suas próprias vidas (geralmente há anos…), pois acreditam que já acumularam conhecimento e experiência de vida suficientes para “orienta-los”.

Assim, a interferência pode vir de todos os lados:

sogros_intereferem_no_casamento– seja no âmbito financeiro, quando questionam a maneira do casal lidar com a renda familiar (pior ainda, quando a família os apoia financeiramente);

– seja no âmbito individual, quando criticam características da personalidade de qualquer um dos membros do casal (por que fulano é tão reservado? tão calado? tão extrovertido? … – pior ainda é quando não há empatia com os sogros) ;

– seja no âmbito profissional, quando criticam o ramo do trabalho, a remuneração, o estresse, o número de horas fora de casa, entre outros detalhes (pior ainda, quando se trabalha na empresa/negócio da família);

– seja no âmbito afetivo, quando não respeitam a privacidade e os hábitos do casal (pior ainda, quando o casal mora em um imóvel de propriedade de um dos sogros ou próximo à residência de qualquer um deles – ou ainda quando os filhos são pouco assertivos e não sabem delimitar os limites da intereferência de seus próprios pais, às vezes, permitindo até que eles morem com o casal);

– seja na educação dos filhos, quando criticam os valores e o modo como o casal cria e educa os filhos (pior ainda, quando as crianças ficam sob os cuidados de qualquer um dos sogros)

familia_(des)unidaSe viver a dois, já não é fácil, imagine como é viver à seis! Mesmo que os sogros já tenham falecidos, suas lembranças, ensinamentos, valores, loucuras e censuras permanecem vivos nas gerações que os seguem.

Encontrei esse vídeo que, apesar de ser meio caseiro, mostra de forma bastante interessante as críticas das entrelinhas. Aquelas críticas (in)diretas carregadas de significados não-ditos, que incomodam, machucam e dificultam a convivência familiar.


E se no final, o relacionamento não der certo, eles fizeram tudo que podiam para apoiar, ajudar e orientar. Afinal, eles te amam e só queriam o melhor pra você e, obiamente, não tiveram nada a ver com o ocorrido. Claro!

excesso_de_amor_machuca

Eles só se esqueceram que excesso de amor também machuca!

Viver em família é um exercício diário de respeito mútuo e tolerância às diferenças individuais e isso, na maioria das vezes, não ocorre sem conflitos. É a família que nos proporciona a oportunidade de lapidar nossa personalidade, qualidades, defeitos e aprendizagens ao longo de anos de muito treino, paciência e amor. Esse amor é tão forte, que apesar do desgaste e dos conflitos da convivência diária, ele ainda é capaz de segurar os laços firmes. Afinal, não há rosas sem espinhos, né?

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Texto por Fernanda Suguino. Todos os direitos reservados.
Reprodução parcial permitida com citação obrigatória do link de origem.

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Autor: Fernanda Suguino

Fascinada por gente que pensa, questiona e desafia a si mesmo. Psicóloga formada pela Universidade Mackenzie e pós-graduada em Psicopatologia pela NAIPPE/USP.

2 comentários em “O mito da harmonia familiar”

  1. Excesso de amor, superproteção e controle exagerado sufocam. Acabam com a nossa capacidade de querer algo, pois antes de que se possa dar o primeiro passo, o outro lhe cerca de cuidados, conselhos e proteções que aniquiliam a vontade de querer, desejar, sonhar e correr riscos. Correr riscos? Sim, eles fazem parte da vida. Não se pode proteger ninguém de viver. Pense nisso!

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